The multi-functionality and resilience of the Mediterranean landscape: the traditional vegetable gardens from the Southern Portugal and Northern Morocco.
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CHAIA
Abstract
À paisagem é inerente o indivíduo, a consciência e a experiência, o que a torna de ordem estética. É a realidade estética que contemplamos vivendo nela, que Rosario Assunto tão bem definiu. Holística e produto de um sistema dinâmico natural, em constante transformação e evolução, constitui-se como expressão da identidade de um povo.
Intrínseco a este conceito de paisagem é o conceito de multifuncionalidade, histórico, próprio da ideia do fazer e do sentimento e que se reflecte na apropriação simultânea do espaço para produção, protecção e recreio. Este conceito dilui-se com o movimento moderno e a segregação funcional que o caracteriza conduzindo a uma perda da identidade do espaço da paisagem.
O entendimento da paisagem como um sistema contínuo, complexo e dinâmico, resultante de processos naturais e culturais em constante transformação, determina o retorno à dimensão multifuncional da paisagem. Esta paisagem, que desejamos e defendemos, encontramo-la na base da paisagem do Mediterrâneo, que surge unitária e identitária, dentro da multifuncionalidade e heterogeneidade que a caracterizam.
Desde as civilizações mais antigas do Oriente, passando pela época clássica, pela Idade Média e até aos novos impérios, diferentes culturas foram reencontradas e integradas nesta grande unidade. Desta sedimentação cultural complexa nasceu um sistema de paisagens duma qualidade formal extraordinária e a certeza que a organização dos espaços da paisagem e das cidades representam um património essencial para a cultura universal, não apenas porque foi cantada por Homero, ilustrada por Ticiano e descrita por Braudel ou por Cervantes mas, também, porque a sua construção e gestão foi sempre multifuncional, inclusiva, integradora e vital resultado do trabalho sábio e humilde quer do povo, quer dos técnicos e dos estudiosos que a analisaram e estudaram, quer do ponto de vista cultural quer natural, para além da experiência empírica.
A história da paisagem mediterrânica prova que a multifuncionalidade da paisagem é fundamental, não apenas para a manutenção de uma identidade histórica, ambiental e paisagística, mas também para assegurar a sobrevivência e a identidade de uma civilização. O exemplo destas paisagens, que se pretendem continuar a integrar no desenho da paisagem, e explorar neste estudo é as hortas, combinando as funções de regulação dos ecossistemas com as funções de informação da natureza e da própria estética, entre outros.