Afetividade e Criatividade em Filosofia para Crianças
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Childhood and Philosophy
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A prática filosófica com crianças permite que elas construam e cumulativamente
reconstruam significados enquanto formam a consciência de si, mobilizando
simultaneamente elementos dos domínios afetivo, cognitivo e recreativo, presentes na
esfera da sua experiência. Nesta dinâmica, habilidades de diálogo e de pensamento
consolidam-se sobre competências crítico-reflexivas, sensíveis a critérios razoáveis de
afirmação das competências intencionais de interpretação desta sensibilidade em
ambientes educativos profícuos privados e públicos, tais como a família e a escola. Sendo
a vida infantil um processo de mútuo crescimento entre a consciência individual e o meio
social um caminho regulado pelo seu valor e autenticidade de ser que já-é, seja como
«projeção extensiva» ou «corporalizando o desejo», Lipman busca um pensar mais atento, mais
criterioso, mais significante, mais criativo e mais cativante: um pensar investigando. Estas
múltiplas dimensões do pensamento proporcionam à criança três exercícios fundamentais
na conclusão da sua singularidade, carácter e personalidade: num primeiro momento, a
descoberta da sua potencialidade ontológica manifestada segundo um desejo de diálogo
interior na intenção de conhecimento de si mesmo, enquanto ser-sujeito-criança que
pretende conhecer o Outro que há em si; num segundo momento, a tomada de
consciência da importância da “relação de encontro e de reconhecimento” com Outro que
já não é uma mesmidade, mas que funciona como uma necessidade de «caminhar junto
com…brincando» na condição de tomar a reciprocidade como imperativo da construção de
um sujeito que se quer também ser-pessoa; e num terceiro momento, um retorno a si, como
forma de re-nascimento face à aprendizagem que o contexto lhe proporcionou. É no
dinamismo deste contexto que a criança aprende a pensar. Assim, pensar melhor é
exercitar, mais que um pensamento complexo, um pensamento de ordem superior.
Inevitavelmente surgem-nos questões que nos inquietam face a estas ideias: como
potenciar o exercício reflexivo e crítico rumo a esta práxis sapiente? Que modelo de
discussão devemos adoptar para que se tomem como objetos sentimentos ou pulsões
éticas, emoções ou pulsões estéticas para que a descoberta do íntimo de seu ser e da sua
socialização e civilidade seja efetiva? Que relação se pode firmar entre o desejo, a arte de
ser e a forma de viver?
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Citation
Bento, Fernando. AFETIVIDADE E CRIATIVIDADE EM FILOSOFIA PARA CRIANÇAS. Rio de Janeiro: Childhood & Philosophy, vol. 10, núm. 20, jul-dez, 2014, pp. 383-399.