Histórias Imagens e Letras - Literatura e Cinema numa Perspectiva Comparatista
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Abstract
Nas relações que o cinema mantém com a literatura, a dominância do modelo narrativo e dos próprios parâmetros do romanesco, é notória. E essa notoriedade revela-se desde os primórdios do cinema que se faz como produção poeticamente reflectida. Em 1926, Boris Eikhenbaum, além de afirmar a maior facilidade da adaptação do romance ao cinema do que ao teatro, enumera os grandes escritores russos que foram levado ao ecrã. A questão da relação com a poesia lírica, quase sempre desenvolvida episodicamente nalgumas experiências e abordagens teóricas especulativas, não se tem apresentado, por isso, tão frequentemente. No entanto, Eikhenbaum, no artigo que acabamos de citar, sublinha o facto de a montagem cinematográfica propiciar ao espectador um discurso interior, concluindo ele que, se o cinema, como muitos afirmam na sua época (e mesmo ainda hoje) “se opõe à cultura da palavra, é unicamente no sentido em que a palavra está escondida nele e é necessário descobri-la” .
Retoma ele, na época em que se fundam as grandes concepções teóricas do cinema na União Soviética, sobretudo com Eisenstein e Pudovkine, uma noção que já tinha fascinado, uma década antes (anos 20), os surrealistas e os cineastas franceses seus contemporâneos, frequentemente designados por “impressionistas”. As perspectivas que Germaine Dulac sugere quando se refere ao “poema sinfónico em que o sentimento explode, não em factos, não em actos, mas em sonoridades visuais”, quase em uníssono com D’Annunzio, ao afirmar que o cinema deve dar aos espectadores as visões fantásticas, as catástrofes líricas e as mais ousadas maravilhas”, ou com Louis Delluc, que admirava nos filmes “a força nova da poesia moderna”, chamam-nos a atenção para uma dimensão da dialéctica entre a palavra (oral e escrita) e a imagem icónica levada à máxima expressão paradoxal, resultante do discurso do cinema, que, posteriormente, não conheceu muitos desenvolvimentos teóricos.