Agentes de saúde no império português do Oriente (séculos XVI-XVIII)
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Edições Húmus
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O papel dos territórios ultramarinos na expansão do conhecimento médico está entre os tópicos mais profícuos da moderna história da medicina, com especial realce para a historiografia anglo-saxónica, onde se evidenciam Mark Harrison (2010), Pratik Chakrabarti (2014) e, mais recentemente, Suman Seth (2018). Estes autores trilham os caminhos abertos pelas obras de Michael Pearson (1996, 20-41), Kapil Raj (2007) e Sanjay Subrahmanyam (1997, 735-62), entre outros, que analisaram o impacto da circulação de pessoas e de saberes durante a desig¬nada “idade do comércio”: uma corrente com seguidores em Portugal, ou em historiadores que escrevem sobre Portugal na época moderna, como Henrique Leitão, Palmira Costa (Costa e Leitão 2008, 35-53), Amélia Polónia (2017, 113-139), Eugénia Rodrigues (2018, 74-96), Timothy Walker (2009, 247-70) e Hugh Cagle (2018), e que evidenciam a importância dos médicos, cirurgiões e boticá-rios como intermediários culturais e divulgadores da ciência. Pouco exploradas na historiografia nacional são as questões ligadas aos agentes responsáveis pela interacção e cruzamento entre as práticas curativas transportadas pelos portu¬gueses e as encontradas nas diferentes partes do império. O texto que a seguir se apresenta pretende contribuir para o aprofundamento desta temática abordando o perfil de alguns médicos e cirurgiões que serviram a coroa portuguesa no Estado da Índia2 – aqui praticamente circunscrito a Goa, com algumas alusões a Moçambique –, assistindo os doentes, formando recursos em saúde ou reconhe-cendo os saberes locais. Para este trabalho foi convocado um conjunto variado de fontes, muitas já conhecidas – sobretudo as divulgadas pelo médico Alberto Carlos Germano da Silva Correia, cuja obra continua a ser de referência pela informação que transmite e pela transcrição de documentos originais (Correia 1941) – mas reinterpretadas à luz da investigação em curso sobre os agentes da cura em Portugal durante a época moderna.3 De fora ficará a intervenção das ordens religiosas e das misericórdias na área da saúde e da assistência, tópicos sobre os quais já existe bibliografia especializada.
Concretamente, tentar-se-á apurar como a coroa portuguesa organizou e foi gerindo o campo médico no Índico, entre o início do século XVI e o do século XIX. Sem perder de vista a situação de outras colónias, a análise privilegiará o diálogo com a metrópole, onde o sector era controlado pelo físico-mor do reino e pela Universidade de Coimbra.
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Abreu, Laurinda, "Agentes de saúde no império português do Oriente (séculos XVI-XVIII)", O Estado da Índia e a Costa Oriental Africana, André Teixeira; Artur Teodoro de Matos; João Teles e Cunha (coords), Edições Húmus, 2024, pp. 111-139.