Sustentar a Sustentabilidade: desventuras de um mantra

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Colóquio e Mesa-redonda “Pensar a noção de sustentabilidade”, Universidade de Évora

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A etiqueta ‘sustentável’ carimba actualmente a circulação universal de mercadorias. Mas é, a sustentabilidade, auto-predicável – é, ela, por seu turno sustentável? Questão retórica, não porque a sustentabilidade valha zero, mas porque constitui uma sobrecarga suplementar no sistema: a da sua mentira fundadora e integral. A sustentabilidade não sustém o apocalipse – pelo contrário, sustenta-o perversamente. Toda a organização da matéria, da cosmologia do sistema solar ao conatus vital dos reinos biológicos, parece estruturar-se exaustivamente em camadas de sustentação. A perseverança e triunfo civilizacionais da espécie humana sustentam-se no mundo e auto-sustentam-se na sua própria inteligibilidade histórica. Todo o nosso pensamento metafísico, bem como a própria forma lógica da razão, é um pensamento do fundo e do fundamento, da origem primeira e da causa universal sobre cuja garantia tudo repousa. Estamos secretamente viciados em imortalidade. Não acreditamos na morte, no sobrevir da impossibilidade de toda a possibilidade, na insustentabilidade última da existência, do cosmos, do ser. Mediante uma exegese multifária das modalidades epistemológicas e das figuras ônticas da sustentação, inquire-se aqui da estruturação metafísica persistente, e perigosamente enganadora, da consciência, que a impede, como consciência contemporânea de crise cientificamente esclarecida, de assumir aquilo mesmo de que é porém perfeitamente ciente, como se ao conhecimento não bastasse conhecer, mas precisasse ainda de acreditar. Se a consciência está ciente da iminência apocalíptica, a sua estrutura biológica e metafísica profunda impede-a de acreditar no que todavia sabe, como se apenas a fé cognitiva adquirisse propriamente o saber. Desta paralaxe fatal, menos fractura entre consciência e realidade do que cisão interna da própria consciência, decorrem todos os dédalos e impasses do carrossel da morte em que a humanidade planetária gira sonâmbula, numa precessão do futuro que traz o efeito – o ano 2100 – a ser contemporâneo da causa determinista que ‘já o produziu’… em 2020-2030. O tempo causal não é o tempo cronológico: onde este dilata e procrastina, aquele contrai e angustia. A ética do imperativo ecológico não se limita, pois, a ser uma ética ‘da máxima da acção’, diante da possibilidade ‘que se abre’, mas uma ética desesperada do já de uma outrossim acção máxima, diante do necessário inescapável.

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Martins, José Manuel, “Sustentar a Sustentabilidade: Desventuras de um Mantra”, comunicação apresentada ao Colóquio e Mesa-redonda “Pensar a noção de sustentabilidade”, Universidade de Évora, 8 de Maio de 2023 | Sala de Docentes.CES

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