Ironia e autoreflexividade nas novelas policiárias de Fernando Pessoa

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Universidade de Évora

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Este ensaio pretende relevar uma das facetas menos conhecidas e reconhecidas da literatura pessoana - a policial. A partir do nosso estudo, iremos pesquisar se o procedimento irónico, presente em grande parte da obra literária de Fernando Pessoa se materializa na sua proposta policiária. O próprio termo - policiárias- aplicado às novelas, será apenas um neologismo ou, sobretudo, uma tentativa de inserir a ironia no acto de criação de um novo género? Sendo a ironia uma característica da modernidade, ao aliar-se à negação de normas e padrões do seu período histórico, instituindo a dúvida e a incerteza, produzirá inevitavelmente uma análise reflexiva e crítica face à realidade. Essa reflexão permitirá talvez estabelecer uma ponte metodológica entre as margens do romance policial, da filosofia e da ciência. Será a ironia, nas novelas policiárias de Pessoa, um mero expediente literário ou um pretexto para reflexões mais profundas sobre a sua época, como em muitas das suas obras? E se assim for, não terá sido também a sua escolha das novelas policiárias - frequentemente discriminadas nos estudos literários – um exemplo de ironia? Serão os pressupostos teóricos de alguns pensadores como Sócrates, Kierkegaard, Bergson, Schopenhauer, Rorty e Linda Hutcheon que irão auxiliar a nossa investigação sobre esta matéria; ABSTRACT: This thesis approaches one of the least known and less reputed components of Fernando Pessoa’s literary work – his crime novels. The use of irony as a literary device is often present in Pessoa’s work. The present essay intends to assess whether irony also emerges as writing device in his crime novels. For instance, the peculiar way Pessoa himself named his incursion in the field of crime novels as “obras policiárias” – was this simply a neologism or already an attempt to insert irony in his very act of trying out a new genre? Irony in itself is often a critical reflection of the patterns and norms of a society’s historical period, raising the kind of doubt and uncertainty we often link to modernity. As such, irony can be used as methodological basis for the analysis of broader philosophical and epistemological issues emerging in a particular moment in time. Was irony in Pessoa’s crime novels then merely a literary device or the trigger to more profound reflections on his times, as many of his other works were? And if so, was his choice of crime novels – so often the underdog of literary work – as the means for this type of analysis not already a little irony on its own? This essay resorts to the work of thinkers like Sócrates, Kierkegaard, Bergson, Schopenhauer, Rorty e Linda Hutcheon to shed light into this new perspective of Pessoa’s work.

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