Literatura como matéria inteligível [ύλη νοητή] em Raul Brandão

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A Ideia: Revista de Cultura Libertária

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O literário não imita o real: converte-o em literatura, encapsulando numa mónada ‘sem janelas’ a própria função referencial. Os seres literários – como os palhaços de Raul Brandão – têm por referente, não o mundo, nem sequer um ‘mundo ficcional’, mas a substancialidade distintiva da própria instância literária a que pertencem: a matéria inteligível (subsistente nela mesma) das palavras que os dizem, não a replicação imaginária dos espaços onde agem. Só como pintura pode uma leiteira ser leiteira, na pintura (‘em’ Vermeer). Só como literatura pode um palhaço ser palhaço, na literatura. Um palhaço de Brandão é em Brandão; e, enquanto durar a vigência do literário que lemos, de modo nenhum esse palhaço remete, por regresso referencial, ou já imbuído da estranheza de uma suspensão fenomenológica eidética, aos palhaços dos circos e às suas pantomimas de opereta inerentemente desfiguradas e excessivas, no palco das pistas (a ‘função referencial’ é o mais intransitivo dos seus artifícios). A argumentar esta tese – a literatura instaura-se para além da alternativa realidade/ficção –, convocam-se e disputam-se binómios teóricos com os simulacros de Baudrillard, la peinture de Malraux, o “inexprimir o exprimível” de Barthes, a ópera coeva de Leoncavallo, o Quijote, a Biblioteca de Babel de Borges, a ‘impossibilidade da ficção como a único personagem da quase-ficção de Brandão” segundo Eduardo Lourenço.

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MARTINS, José, “Literatura como matéria inteligível [ύλη νοητή] em Raul Brandão” in A Ideia: Revista de Cultura Libertária, vol. XXVI, n.os 100/101/102/103 – Outono 2023, pp. 182-186 ISSN: 0870-6913

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