Existência e filosofia: o ensaísmo de Eduardo Lourenço

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Universidade de Évora

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"Sem resumo feito pelo autor"; Em 1820, Hegel escreve as palavras que se seguem: «a filosofia, porque é o indagar do racional, é, precisamente por isso, o apreender do presente e do real efectivo, não o estabelecer de um além, sabe Deus onde deveria ser». Num contexto radicalmente diverso, o filósofo italiano Mario Perniola refere-se ao ambiente que caracteriza a investigação filosófica nos finais do século XX em termos que, aos nossos olhos, são igualmente relevantes: «ao longo dos últimos vinte anos [desde 1968, aproximadamente] abriu-se para o saber uma possibilidade única e extraordinária: a de se colocar finalmente em ligação directa (presa directa) com a experiência quotidiana». Julgamos ser possível partir destas concepções, que vinculam, com um vigor indesmentível, a reflexão filosófica à experiência concreta, para procurar aceder à especificidade que caracteriza o ensaísmo filosófico de Eduardo Lourenço. Todavia, ao apresentara dissertação de doutoramento em Filosofia em Portugal Existência e Filosofia O Ensaísmo de Eduardo Lourenço, estamos cientes da necessidade de convocar duas questões preliminares. Em primeiro lugar, devemos tentar responder à seguinte questão: o que entendemos por Filosofia em Portugal? Ou seja, de que critérios nos vamos servir para determinar esta área específica da investigação filosófica? Posteriormente, devemos abordar uma segunda questão: o que entendemos por ensaísmo? Ou, caso se prefira dizer de outro modo, por que motivo julgamos poder adjectivara obra de Eduardo Lourenço com a categoria de ensaísmo filosófico? Entendemos por Filosofia em Portugal toda a investigação ou labor filosóficos que se efectuem a partir de (muitas vezes contra) um determinado plano pré-compreensivo que poderíamos designar como cultura Portuguesa, no sentido mais amplo da designação. Porém, sem prejuízo de uma análise mais pormenorizada que dedicaremos ao assunto, nomeadamente no capítulo VII deste trabalho, devemos dizer, desde já, que não nos parece desejável recorrer à expressão Filosofia Portuguesa, pois, muitas vezes, nela se plasma apenas uma corrente, importante sem dúvida, embora não exclusiva, da reflexão filosófica realizada em Portugal. Neste ponto, seguimos Manuel Antunes, por exemplo, para quem «não parece legítimo poder afirmar-se a existência de filosofias nacionais, no sentido rigoroso destes vocábulos. (...) Se é nacional não é filosofia, e se é filosofia não é nacional». Na mesma linha desta interpretação do problema se encontram as observações de um outro autor, Onésimo Teotónio Almeida, que sustenta o seguinte: «Subjaz à obsessão das filosofias nacionais a ideia de que a filosofia grega é tipicamente grega e a inglesa é tipicamente inglesa, como a filosofia alemã é alemã, e daí também fazer sentido criar-se uma filosofia portuguesa. Mas há uma diferença essencial a ter em conta: nenhuma dessas filosofias se procurou nacional. A tonalidade cultural veio por acréscimo. ( ... ) É bem possível encontrar características culturais comuns no estilo da filosofia e nalguns aspectos da mundividência de Nietzsche, Hegel. e Heidegger, por exemplo, mas não serão esses os aspectos mais importantes do seu pensamento».

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