"ALQUEVA - paisagem como tema" / "ALQUEVA - landscape as a theme"

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Alqueva, paisagem como tema Alqueva deixou de representar apenas uma aldeia esquecida no sul do Alentejo, tornando-se no novo paradigma de desenvolvimento de toda uma região. A barragem e o grande lago do Alqueva, como novos agentes de transformação, anunciam renovados futuros produtivos para a industria agrária, mas lançam, igualmente, a interrogação sobre a real dimensão do impacto ambiental que esta mudança está e irá produzir. Esta dupla e inevitável leitura a partir de um território em processo complexo de mutação, vem evidenciar uma crescente atenção sobre as questões patrimoniais, assim como um novo olhar sobre o que constitui e caracteriza esta paisagem. Alqueva passou, portanto a ser um sistema paisagem que importa estudar, não apenas enquanto fenómeno cultural, produto de uma história e de uma estética, mas também, pela necessidade de redesenhar o território com todas as suas novas evidências. Alqueva, de uma aldeia no centro Alentejo, parte de um estrutura de micro aglomerados urbanos em rede, organizados num vasto território também reserva Dark Sky, a uma nova marca identitária do Alentejo, a paisagem como um tema. Esta paisagem também se caracterizou por relações sociais e laborais, produtivas e culturais como contadas no texto de José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo (1971), ou na musica de José Afonso no documentário de Thomas Harlan Torre Bela (1975) sobre a ocupação de uma grande herdade invocando as tensões sociopolíticas em redor dos senhores da terra. De certo modo relembra também outras paisagens como nos mostra o filme Senso (1954) de Luchino Visconti que inicia com uma cena da Opera Il Trovatore de Giuseppe Verdi que serve de fundo para o tema do filme que decorre na paisagem agrícola da região do Veneto. Visconti, elege a maestria do espaço arquitectónico de Andrea Palladio através da Villa Godi como condutor de relações históricas e culturais, algumas delas com matriz semelhante das que se investigam neste projecto. O trabalho desenvolvido com os alunos de Projecto Avançado do Departamento de Arquitectura da Universidade de Évora, entre 2013 e 2014, procurou, numa primeira leitura, reconhecer, sistematizar e organizar uma vasta informação, associando aos dados cadastrais uma actualização da cartografia, diferentes registos e marcas, que constituem um instrumento fundamental de (des)codificação do território, com dados culturais e vivenciais; numa segunda leitura, identificar, investigar e seleccionar os objectos arquitectónicos que mais directamente manifestam marcas do impacto do grande lago e da erosão de um passado agrícola que se alterou profundamente, como são exemplo os montes alentejanos que, apesar de grande parte abandonados, ou desactivados da sua função original, representam uma importante matriz funcional e produtiva. O acto de percorrer o território, como método de abordagem para uma aproximação física à intensidade própria dos lugares, é um acto que pretende desactivar o olhar que nada vê, próprio das lógicas burocráticas-turísticas mais agressivas. A reflexão a partir de uma leitura sequencial e gradual desde a macro escala à escala do espaço habitado, abriu campo para a descoberta de programas e temas que apontam um novo sentido e significado de permanência nesta paisagem. Posicionar a resposta da arquitectura no ensaio e discussão destas problemáticas assume uma forma de responsabilidade ética, no sentido de uma revalorização do património e da paisagem e de uma necessária reposição dos seus valores potenciais e estruturais na nossa contemporaneidade. O livro que agora se apresenta, pretende fundamentalmente mostrar uma realidade poética e arquitectónica de grande consistência, que urge revelar e .estudar, até nos seus paralelismos com outras culturas do mediterrâneo. A sua divulgação pública, após um primeiro momento de apresentação com a exposição no Museu da Luz, corresponde ainda a um desejo de inscrição desta matéria de trabalho numa discussão alargado sobre estes temas. Manifestamos o nosso agradecimento aos parceiros e apoios, institucionais e editoriais, que tornaram estimulante a produção deste trabalho num contexto académico e possível a sua organização e edição.

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