Polifonia portuguesa sacra tardo-quinhentista: estudo de fontes e edição crítica do livro de São Vicente, manuscrito P-Lf FSVL 1P/H6

Abstract

"Sem resumo feito pelo autor": Não há, creio, introdução ou prefácio a obra historiográfica de maior vulto sobre a música em Portugal que não ressalve, ora a debilidade, ora a escassez da investigação musicológica de base no nosso País, benevolamente explicadas pela «falta de uma tradição de reflexão sintética sistemática» que sustenta as «graves lacunas de conhecimento» persistentes relativamente a certos períodos histórico-estilísticos ou a dados repertórios. Há anos, em texto de circunstância, insisti na necessidade de a musicologia nacional «regressar, pragmaticamente, à "fase filológica" e concentrar-se na investigação séria e metódica de fontes primárias, na edição de repertório e na sua interrelacionação», como condição para a verificação das hipóteses que permitiriam contextualizar globalmente a música em Portugal e obter dela um panorama mais plausível, «sem os enviezamentos provocados pela despreocupada reprodução de "factos" e generalizações mais ou menos absolutistas construídas na base de leituras quantas vezes acrílicas de corpos documentais desconexos fornecidos pelo acaso ao conhecimento de investigadores e curiosos». Foi essencialmente a coerência com esta espécie de programa que ditou a natureza do presente estudo. Efectivamente, o século XVI constitui ainda hoje uma das «zonas de sombra»4 da história da música em Portugal, por causa sobretudo do conhecimento imperfeito das fontes, dos repertórios, dos seus contextos (re)produtivos e da sua aquisição e circulação. Constituem maior excepção os manuscritos portugueses de repertório ibérico profano tardo-quatrocentista e quinhentista, sucessivamente estudados e todos editados, mais recentemente por Manuel Morais, e as fontes oriundas ou provenientes de Santa Cruz de Coimbra produzidas até cerca de 1620 e parte do repertório que transmitem, objecto da obra musicológica dedicada a temas portugueses porventura mais importante da última década, dada a extensão da contextualização que oferece, da autoria de Owen Rees. Outros corpos de música vocal quinhentista, como os Próprios polifónicos produzidos para a Catedral de Braga, e as suas fontes receberam, entretanto, um tratamento exploratório. No âmbito das fontes estritamente litúrgicas, José Maria Pedrosa Cardoso estudou os passionários portugueses quinhentistas impressos e manuscritos, que consignam uma tradição músicolitúrgica singular, e Manuel Pedro Ferreira vem há anos tratando os livros de coro bracarenses produzidos nas décadas de 1510-20, essencialmente como testemunhos privilegiados do repertório de canto medieval. Tais excepções, porém, ao iluminar parcelas dos espaços-tempo histórico-estilísticos que o século XVI constitui (e a que correspondem diferentes paradigmas estéticos e situacionais), acabam por obscurecer ainda mais as zonas de penumbra. Há, portanto, que prosseguir na investigação parcelar de base até poder iluminar o campo todo, mesmo tenuamente.

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